Naquela noite o meu coração
estava bastante apertado, meus batimentos cardíacos tinham acelerado
rapidamente. Um sentimento ruim tinha tomado conta do meu corpo, minhas pernas
tremiam em ritmo descompassado. Nessa mesma noite eu ocupava a mesma sala escura
e fria que estou agora, esvaziando os meus pensamentos. Assim, descansando das
noites passadas em claro, mas que do contrário, foi por uma justa causa: por
amor de minha vida. Eu tive que suportar os dias mais difíceis e intermináveis,
porém, convivi ao seu lado os melhores. Seus lábios eram meu sufrágio, seus
braços eram meu porto seguro e seus beijos eram o meu vicio.
Em meio a tantas recordações a
imagem mais marcante que pôs a ficar em minha mente foi a do seu sorriso. Não
tinha como não sorrir ao ver o seu, ele era tão lindo, tão puro e sincero.
Hoje, às vezes, pergunto-me se realmente você existiu, se não foi apenas uma
imaginação, se não foi apenas um sonho que tive em uma noite qualquer. Para
falar a verdade, você foi a melhor das coisas que aconteceram em minha vida. Você viveu comigo e eu soube o que é o
significado da palavra viver, você mostrou-me isso a cada dia que passava. Em
quanto estou aqui nessa sala, fúnebre, a casa exala a completa solidão; o
silêncio faz-se companhia para ela, até então, para mim também.
Ainda admiro todos os dias nossos
quadros espalhados por cada canto da casa, cada um representando momentos
especiais: festas de aniversário, festas em casa de amigos, o nosso casamento,
até então, as com caretas absurdas. São várias! Especificar todas levaria muito
tempo. Mas sempre há aquela que chama-nos mais atenção, na verdade, uma
favorita. Sim, um favorita! A minha é uma em que estava-nos a sós conversando
coisas banais, em meio a uma dessas coisas você soltou aquela gargalhada
gostosa, aquela que deixava-me feliz sempre quando podia ouvir, eu não resistir
e capturei, claro, você não viu. Ouvir sua gargalhada era o canto do rouxinol,
sim, você era o meu rouxinol.
Lembro-me de quando brigávamos e
você expulsava-me de casa por uns dois a três dias. Eu ficava sem ter para onde
ir, sem chão, sem razão alguma. Ia para os bares na madrugada encher a cara de
variadas bebidas, tudo para afagar a dor que eu sentia e que lhe causava.
Nesses momentos, eu pensava em desistir completamente de nós, de tudo, mas no
fundo não era isso o que eu queria o que nós não queríamos. Isso era normal acontecer nas primeiras
brigas. Você era o meu ponto de paz, minha luz. Eu não tinha mais em quem
confiar se não fosse a te, éramos confidentes, estávamos sempre para cada um:
nós. Hoje não tenho mais a quem recorrer todas as minhas angustias, elas ficam
somente para mim, pois você se foi e parece que o que restará de mim também.
Lembrar-me disso tudo dói-me até
a alma, pois as lembranças são o que restaram de tudo. Não pude fazer ou
impedir que você partisse naquela noite, se eu pudesse voltar no tempo e pelo
menos tivesse a chance de mudar o que aconteceu, eu não estaria aqui ao fundo
do poço com as lágrimas jorrando dos meus olhos feito uma torneira sem tranca e
você não estaria tão longe, estaria aqui do meu lado; estaríamos felizes juntos
em nossa casa. Às vezes, penso em abandonar tudo, desistir da minha vida só por
você não está nela. Mas a incerteza ainda bate em minha porta. Queria poder
controlar os meus sentimentos, poder arrancar essa dor do meu peito e nunca
mais poder senti-la, mas não cabe a mim isso. Você ainda prende-me de tal
maneira que é inevitável, sinto-me refém de um fantasma, que persuadiu todo o
meu ser.
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